Sentado no trem, enquanto eu via o reflexo da minha lente entrecortar tantas paisagens rasgadas pelo tempo, minha mente se ocupava com o diálogo silencioso que eu tecia com a minha avó, já morta havia 16 anos. Ela me perguntava como era o caminho até a casa de seu pai, e como era o país dele. Eu ansiava pelas histórias que eu traria para ela, quais conversas teríamos na poltrona de curvim vermelho. Como são as pedras? E as casas? Encontrou novos parentes? Se vê o mar de lá? Sentia no meu peito a pulsão e a ansiedade do retorno, o primeiro da família a trazer notícias para o lado de lá. A minha existência, como meu reflexo naquela janela, era fantasmagórica. Eu: o mensageiro entre os vivos e os mortos, missionário do exílio. Depois de Roma, o choque. Estava a pensar na última flor do Lácio, na nossa língua que desenrola daqui, como desenrolam as colinas amarelas que meus olhos alcançam até além do horizonte. Olha só, vó.

Olha só.
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